quinta-feira, 21 de julho de 2011

Indígenas na Mídia - Cidade de SP tem 38 etnias indígenas

Levantamento da ONG Opção Brasil mostra que Região Metropolitana tem quase o mesmo nº de povos que o Estado do Amazonas

O índio xavante Lúcio Waane Terowaa, de 33 anos, migrou para São Paulo há cinco anos vindo de uma aldeia de Barra do Garças, em Mato Grosso. Chegou ao Itaim Paulista, na zona leste, para seguir os passos do mais famoso representante de sua etnia, o cacique Mário Juruna, eleito deputado constituinte em 1986, conhecido por gravar promessas suspeitas de políticos.

No ano passado, em São Paulo, Terowaa se lançou candidato a deputado estadual pelo PSL e teve 318 votos. Em vez do gravador, usa o Facebook como ferramenta política. Tem 910 amigos, com quem debate formas de criar uma aldeia "ecologicamente correta" e autossustentável, que sirva como modelo a ser replicado no Brasil, a partir de São Paulo. "Tenho amigos virtuais de 23 etnias só aqui na cidade. É uma das maiores diversidades do Brasil e por isso São Paulo é uma base importante para a política indígena."

As impressões do xavante são confirmadas pelo levantamento feito pela ONG Opção Brasil, que organiza cursos de educação indígena para os povos de São Paulo. Na Região Metropolitana, a Opção Brasil já contactou índios de 54 etnias diferentes - 38 só na capital. No Estado do Amazonas, o site da Fundação Nacional do Índio relaciona 60 etnias.

A exemplo de migrantes das zonas rurais e sertões, os indígenas de São Paulo chegam em busca de emprego e vivem principalmente em bairros pobres da periferia. "Fazemos o mapeamento pelo contato boca a boca. Um índio passa o telefone de outro. O objetivo é criar uma rede para que a vida na cidade grande seja mais fácil", explica o coordenador da Opção Brasil, Marcos Aguiar.

Os guaranis - índios autóctones que já viviam no Estado antes da chegada dos portugueses - são a única etnia a viver em aldeias na cidade. Duas delas, a Krucutu e a Tenonde Porã, ficam em Parelheiros, na zona sul. A terceira, a Tekoah Itu, é do Pico do Jaraguá, na zona norte. Reúnem cerca de 3 mil guaranis.

As outras 53 etnias são formadas por índios que moram em bairros e favelas da metrópole. Pode ser um pastor evangélico wassu cocal ou um faxineiro cambiuá. Em comum, enfrentam o desafio de carregar uma cultura tradicional e coletivista em uma sociedade moderna e competitiva. "Viver no mundo de hoje sem negar as origens é uma arte", diz a pedagoga Chirley de Souza Almeida Santos, de 37 anos, pancará que mora na cidade há 12.


Fonte : O Estado de S. Paulo

Rede de Saberes realiza encontro de pós-graduandos indígenas

Mestres, mestrandos e doutorandos indígenas de Mato Grosso do Sul se reúnem amanhã, dia 22 de julho, na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em um encontro promovido pelo Projeto Rede de Saberes. Eles irão discutir formas de participar da condução do IV Seminário Povos Indígenas e Sustentabilidade, que será nos dias 15, 16, 17 e 18 de agosto na UCDB.

A ideia do encontro é pensar também a criação de um fórum ou uma rede de pesquisadores indígenas articulada ao Rede de Saberes. Aproximadamente vinte pós-graduandos ou já formados participarão da reunião, que acontecerá das 8h30 às 17h, em umas das salas dos Programas de Mestrado e Doutorado, que fica no bloco da biblioteca.

O trabalho de professores e pesquisadores da UCDB com populações indígenas, desde 1995, reflete no significativo e crescente número de alunos indígenas, tanto na graduação como na pós-graduação. O Mestrado em Educação tem, atualmente, cinco indígenas, das etnias Guarani, Terena e Xavante. Entre os seis indígenas que já concluíram o curso, um é da etnia Tuyuca e os demais são Terena.

Já o Mestrado em Desenvolvimento Local formou dois indígenas Terena e tem um mestrando Guarani. Os trabalhos de pesquisa e extensão junto aos índios estão articulados ao Programa Kaiowá Guarani, coordenado pelo Dr. Antonio Brand e desenvolvido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas (Neppi), que é coordenado pelo Pe. George Lachnitt.


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Fonte: Neepi UCDB

quarta-feira, 20 de julho de 2011

APIB e organizações indígenas repudiam matérias da Band sobre Raposa Serra do Sol

O tratamento dispensado pela jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão  à questão indígena e, em especial, aos povos que vivem na terra Raposa Serra do Sol, causou grande comoção e indignação junto aos indígenas de todo país. 

As organizações que intergram a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)  aproveitam a oportunidade para manifestar total  apoio aos povos de Roraima no repúdio à forma desrespeitosa  e tendeciosa com que  os indigenas foram mostrados. Mais um vez, vemos um exemplo de preconceito patrocinado por uma elite que através do poder econômico manipula os meios de comunicação para criar um ambiente social propício à exploração das riquezas naturais protegidas pelos índios brasileiros e importante fonte de subsistência de inúmeras famílias.

Em nota divulgada no último dia (17), associações e organizações indígenas de Roraima manifestaram indignação devido à veiculação de uma série de reportagens pela Band sobre o território Raposa Serra do Sol, exibidas no início do mês. Ao assistirmos às matérias fica claro a atitude tendenciosa dos jornalistas ao se referirem aos habitantes da região, mais ainda, por meio de imagens que, segundo as organizações indígenas, não condizem com a realidade. "As reportagens são mentirosas em todos os aspectos que tratam da questão indígena", diz a nota.

A nota traz críticas também ao governo."Repudiamos as autoridades governamentais que tem se prestado a assumir a bandeira dos grupos anti-indígenas que tentam, por todos os meios, rever a regulamentação da terra indígena".

Há dois anos, a Raposa Serra do Sol foi reconhecida legalmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como território indígena dos povos Makuxi, Wapixana, Ingaricó,Taurepang, Patamona e Sapar, mas os indígenas da região dizem que estão sofrendo perseguições políticas e de produtores de arroz.

Clique aqui e leia a íntegra da nota de repúdio

Nota de Repúdio

Mentiras sobre a Raposa Serra do Sol


Decorridos dois anos do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal – STF, que reconheceu a legalidade da homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, os povos indígenas que ali vivem continuam sob intensa perseguição por parte da classe política e dos rizicultores. Na segunda semana de julho de 2011 os ataques aos povos indígenas ficaram mais evidentes com a divulgação de uma série de reportagens pela TV Band.

As reportagens são mentirosas em todos os aspectos que tratam da questão indígena e, mais precisamente, quando aludem aos povos da terra Raposa Serra do Sol. A referida terra indígena é território tradicional dos povos Makuxi, Wapixana, Ingaricó, Taurepang, Patamona e Sapará, que trabalham e produzem para seu sustento e cada vez mais buscam elevar sua qualidade de vida. Lamentavelmente, o poder público – tradicional aliado dos grupos anti-indígenas, tem se mostrado negligente para atender aos pleitos desses povos.

As imagens, por exemplo, que mostram indígenas recolhendo lixo não refletem a realidade. Essa situação existe há muito tempo em Roraima como conseqüência da exclusão social. Do lixão de Boa Vista sobrevivem pessoas de vários segmentos excluídos, entre os quais um pequeno grupo de indígenas – que, morando na capital, não tem acesso a educação, saúde, emprego, moradia e outros mínimos benefícios porque o Estado de Roraima tem se mostrado incompetente para formular políticas contra a exclusão social.

Repudiamos as autoridades governamentais que tem se prestado a assumir a bandeira dos grupos anti-indígenas que tentam, por todos os meios, rever a regulamentação da terra indígena Raposa Serra do Sol, mobilizando, para isso, as mais altas autoridades do país.

Reafirmamos o compromisso de defender o direito de todos os povos da terra Raposa Serra do Sol bem como de todos aqueles que buscam o reconhecimento e a regularização de seus territórios tradicionais, ao mesmo tempo em que estaremos sempre vigilantes contra os meios de comunicação que agem de forma tendenciosa e mentirosa, desprezando os princípios éticos da comunicação e o direito de todo sociedade à informação.

Manaus (AM), 17 de julho de 2011.


Associação dos Povos Indígenas de Roraima – APIRR
Associação Indígena Tupinambá da Serra do Padeiro – AITESP
Conselho Indígena de Roraima – CIR
Conselho Indigenista Missionário – CIMI NORTE I
Federação das Organizações Indígenas do Médio Purus - FOCIMP
Organização das Mulheres Indígenas de Roraima – OMIR
Organização dos Indígenas da Cidade – ODIC

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Índios de MS vão à Raposa Serra do Sol

Grande parte dos universitários indígenas voltam seus estudos de conclusão de curso para a temática indígena. Pesquisando em suas próprias comunidades e até mesmo explorando casos mais distantes, eles marcam sua presença na universidade, colaborando de maneira singular na luta pelo reconhecimento dos direitos indígenas, nos mais diversos âmbitos. Atualmente, há mais de 600 índios nas universidades de Mato Grosso do Sul, segundo estimativa do Projeto Rede de Saberes, que apoia sua permanência em três universidades públicas e uma particular do estado.

Terra Indígena Raposa Serra do Sol, uma das maiores áreas indígenas do país foi o caso estudado pelo indígena da etnia Terena, Luiz Henrique Eloy Amado, em seu Trabalho de Conclusão de Curso em Direito, pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Aprovado, Luiz agora foi conhecer a área habitada pelos patrícios das etnias Ingarico, Macuxi, Paramonas, Taurepangue e Wapixana. Esta viagem, não está fazendo sozinho, mas junto aos acadêmicos de Direito Vianey Turíbio e Genivaldo Vieira, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e Sidney Albuquerque, acadêmico de Jornalismo da UCDB. Com apoio do Projeto Rede de Saberes eles participarão de oficina realizada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), entre os dias 19 e 22 de julho.

A oficina conta com participação da primeira advogada indígena do Brasil, Joênia Wapichana, que esteve no mês passado em Dourados, participando do Encontro Temático Saberes Tradicionais e Científicos - Direito, realizado pelo Projeto Rede de Saberes.

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SOBRE O PROJETO REDE DE SABERES

O Projeto Rede de Saberes apoia a permanência de indígenas no ensino superior, atuando por meio de parceria entre a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul de Aquidauana (UFMS). Porém, acadêmicos das outras universidades do estado também participam dos eventos promovidos pelo Rede de Saberes, que alcança assim mais de 600 indígenas universitários em MS. O Rede de Saberes estimula e orienta a iniciação científica, têm laboratórios de informática, oferece cursos de extensão, monitorias e auxilia na cópia e impressão de material. O coordenador geral é o professor da UCDB, Doutor em História, Antonio Brand.

Fonte: Neppi UCDB

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Marãiwatsédé: Carta do Povo Xavante

CARTA DE REPÚDIO DO POVO XAVANTE CONTRA O GOVERNO DO ESTADO DO  MATOGROSSO E OS DEPUTADOS DA LEI 9.564

O Povo Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé repudia a decisão do Governo do Mato Grosso que, junto com os deputados estaduais, promoveu uma verdadeira obra anti-indígena, ilegal, contrariando a Constituição Federal, ao criarem a Lei 9.564 que tenta nos obrigar a abandonar o nosso território tradicional, para dar lugar ao criminoso esquema do latifúndio e do agronegócio, patrocinado por políticos e fazendeiros.

O Estado de Mato Grosso, que tem um governador anti- indígena, tem provocado muito a ira do povo Xavante. Já não bastasse o nosso território ser invadido, usurpado, arrasado por tantos anos, agora tentam nos obrigar a embarcar mais uma vez na caravana do êxodo. Não vamos abrir mão de Marãiwatsédé.

Os posseiros, entre eles políticos e fazendeiros, falam que estão na terra há 40 anos. Afirmamos que, nós Xavantes, fomos expulsos do nosso território, através de uma deportação oficial, que marcou profundo na história do nosso povo.

O Estado do Matogrosso foi devastado pela invasão criminosa do agronegócio e pela ambição dos seus governantes. A soja e o gado não são mais importantes que a vida do povo Xavante que há anos luta para ter o direito de viver em paz dentro do seu território.

Marãiwatsédé é dos Xavante. Não está à venda! Tomamos o que nos foi roubado. Destruíram a nossa natureza, o nosso ambiente de viver, o cemitério dos nossos antepassados destruíram, quem vai pagar isso? O governo do Estado tem condição de indenizar o que foi destruído e roubado?

Sabemos que o Governo Federal apoia a nossa permanência. Precisamos do Governo um projeto voltado para nossa sobrevivência e sustentabilidade, não esse projeto que quer dizimar o nosso povo.

Não aceitamos, queremos que o Governo do estado respeite a Nação Xavante, pois a nossa luta continua. Sempre vivemos em pé de guerra pela busca e garantia dos nossos direitos. Não negociamos, não vendemos, não trocamos o nosso território. Honramos os nossos antepassados que vieram para essa região bem antes que qualquer um e nasceram e cresceram e estão enterrados aqui, porém vivos em cada árvore, em cada canto de pássaro, na cor da nossa pele, na força da nossa cultura, em cada lembrança de Marãiwatsédé.
Somos o povo guerreiro Xavante, revogamos a lei anti-indígena, fazemos a nossa própria história para permanecermos vivos. Somos nós os donos dessa terra. Nós que vivemos da terra, morreremos por ela. Estamos prontos para a guerra.

Marãiwatsédé, Mato Grosso, 14 de julho de 2011.

Saudações Xavante,
Agnelo Temrite Wadzatse
CACIQUE GUERREIRO XAVANTE
COORDENADOR GERAL DA CIX
PRESIDENTE DO CONDEF - COIAB


Reforma do Código Florestal ganha página especial multimídia

A partir desta quarta-feira (13), o cidadão terá mais facilidade para acompanhar todas as notícias e debates em torno do projeto do novo Código Florestal que tramita no Senado. A Agência Senado, em parceria com os demais veículos de comunicação da Casa, desenvolveu uma página especial multimídia que vai concentrar todas as informações sobre o tema divulgadas em áudio, vídeo e texto no Portal do Senado.

A nova página especial multimídia "Reforma do Código Florestal" trará a cobertura jornalística dos debates nas comissões e no Plenário sobre o tema, além de agregar outros conteúdos que ajudarão o leitor a acompanhar os debates e entender melhor o assunto, como entrevistas, opiniões e infográficos.

O endereço é : http://www12.senado.gov.br/codigoFlorestal

Fundo Amazônia prepara seleção pública de projetos produtivos sustentáveis

O grupo de trabalho criado pelo Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA) para elaborar proposta de edital de seleção de projetos para desenvolvimento de atividades econômicas de uso sustentável da floresta e da biodiversidade concluiu essa semana seus trabalhos.

O documento será levado à deliberação do COFA em sua próxima reunião, ainda sem data definida e poderá sofrer modificações.

O público-alvo da chamada são povos indígenas e comunidades tradicionais, assentados e agricultores familiares do bioma Amazônia.

Segundo a proposta a ser analisada pelo COFA, os projetos poderão ser apresentados individualmente por associações ou cooperativas, ou compor um conjunto de projetos gerido por uma instituição aglutinadora. As propostas serão analisadas por uma comissão de seleção e classificação que contará com a participação de representantes de alguns ministérios, alem de um representante dos governos estaduais e da sociedade civil.

A comissão analisará os projetos de acordo com um conjunto de critérios pré-estabelecidos. As propostas selecionadas comporão um cadastro e a partir daí cumprirão os tramites de analise do Fundo Amazônia.
 
Fonte:INESC

Sob as lonas pretas, mais uma criança Guarani Mbya morre sem ter vivido em sua terra

Finda a tarde do dia 13 de julho de 2011, RS-040, Km 60, município de Capivari. Os Guarani Mbya, que vivem às margens daquela rodovia, recebem o corpo sem vida de Amilta, de apenas quatro anos de idade. A pequena Mbya não resistiu a uma pneumonia e faleceu às 11 horas da manhã do dia 12.

Os pais de Amilta, Rafael e Yolanda, não tendo uma Opy (casa de reza) para realizar os rituais sagrados do povo, levaram o corpo da filha para ser velado em um barraco improvisado, coberto com lona preta. Lá passaram toda a noite. O frio e a chuva foram companhias permanentes. As lonas, em estado precário, deixavam passar o vento e alguns pingos de chuva.

                                                 Acampamento Capivari
                                                                  Povo: Guarani Mbya
                                                                  10 famílias
                                                                  Município: Capivari (RS)

Não havia no acampamento velas e nem pety (fumo) para o petynguá (cachimbo) que são fundamentais em rituais fúnebres. Na manhã do dia 14, um carro funerário deveria fazer o translado do corpo da menina para a aldeia da Estiva, área do povo Guarani, com apenas sete hectares, que apesar de diminuta possui um cemitério.

Mas como fazer o enterro se os rituais não foram realizados? A comunidade decidiu que o enterro somente aconteceria no dia seguinte. Através da doação de pessoas solidárias, o fumo e as velas foram levados até o acampamento e a comunidade pôde iniciar os rituais para a pequena Amilta.

Vivem no acampamento Capivari, à beira da rodovia, 10 famílias do povo Guarani Mbya. Não dispõem de água potável, energia elétrica, muito menos saneamento básico. Raramente recebem visita de equipes de saúde da Sesai (Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena). Alegam falta de recursos e de combustível para prestar atendimento à comunidade. O acampamento situa-se a menos de 80 Km de Porto Alegre (capital do estado onde está localizada a sede da Sesai). Apesar da facilidade de acesso e geograficamente bem localizada, a comunidade é totalmente esquecido pelos órgãos de assistência.

Terra reivindicada, mas não demarcada



                                                   Acampamento Capivari visto da RS 040.


O cacique da comunidade, Sr. Augusto, mora em Capivari há mais de 25 anos e afirma que a Funai conhece a história do acampamento e tem conhecimento das reivindicações da comunidade, mas nunca fez nada, além de promessas. Com uma fisionomia abatida, disse não acreditar mais nos juruá (brancos), porque eles apenas lançam as palavras, mas não cumprem com aquilo que prometem.

A terra reivindicada já foi, por diversas vezes, objeto de estudos de antropólogos que comprovaram a tradicionalidade da ocupação Guarani na região. A Funai, ciente destes estudos, nunca realizou os  encaminhamentos devidos, porque do outro lado da cerca está situada uma grande fazenda onde se cria gado e se cultiva arroz. Com essa atitude, os representantes do órgão indigenista continuam a manter na indigência as famílias Guarani.

No Brasil, há décadas se denuncia a realidade de abandono dos povos indígenas e se reivindica urgência nas demarcações de terra, para assegurar, assim, a saúde, a dignidade, a sobrevivência destas populações. Mas apenas quando a situação se agrava, beirando o caos, é que o Poder Público se volta para as comunidades afetadas, com apenas medidas emergenciais que nunca se estabelecem como verdadeiras políticas duradouras em defesa da vida dos povos indígenas. Não há uma atuação planejada e contínua, capaz de dar solução aos graves problemas enfrentados pelos indígenas que vivem nos mais diversos estados brasileiros.
 
Acampamentos indígenas à beira de BRs

É cada vez mais evidente, no sul do país, a realidade de abandono e de omissão do Poder Público, e a situação das comunidades agrava-se a cada ano. A imagem de famílias indígenas acampadas à beira de rodovias já se tornou comum, e parece não surpreender. Vale ressaltar que existem no Rio Grande do Sul gerações inteiras de Guarani que não conheceram outra realidade a não ser a vida em acampamentos “provisórios”. Registra-se, por exemplo, a existência de acampamentos que já existem há três décadas, sem que a Funai e os órgãos responsáveis tomem providências para resolver definitivamente o problema: a efetiva demarcação das terras tradicionais reivindicadas por este povo.

A situação vivida pelos Guarani no estado do Rio Grande do Sul, assemelha-se à passagem bíblica da luta de Davi contra Golias. De um lado, um povo indígena que tem o direito, assegurado no texto constitucional, de viver em suas terras, cuja tradicionalidade é incontestável e, de outro, os supostos “proprietários” dessas mesmas terras, representantes de um poder econômico privilegiado, o do agronegócio. Neste contexto, a posição do Poder Público tem sido a de proteger os interesses daqueles que são considerados “produtivos” e desejáveis para o desenvolvimento do estado e do país.

E a estratégia principal, colocada em curso há décadas, tem sido o descaso para com as reivindicações indígenas, a morosidade nos procedimentos de identificação e de demarcação de terras, a substituição de políticas de atenção à vida por ações emergências e assistencialistas. O que se verifica, nestas circunstâncias, é que o texto constitucional e os direitos nele resguardados ficam reféns de jogos de poder político e de interesses que ecoam nas esferas decisórias do governo federal.

O resultado disso é a inaceitável morte de crianças como Amilta, uma entre tantas outras vidas ceifadas prematuramente, uma entre tantas outras vítimas da omissão do Estado, da inoperância da Funai e do desrespeito aos direitos indígenas.

As responsabilidades e a omissão em números

A responsabilidade pelo luto vivido pelas famílias Guarani que choram a morte de Amilta, e pela violência cotidiana imposta a este povo, é do governo federal – na figura de sua representante maior, a presidenta Dilma Rousseff e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que responde pelo ministério ao qual a Fundação Nacional do Índio está subordinada. Não há, por parte do governo, qualquer manifestação de compromisso concreto com os Guarani e nem qualquer tipo de ação que possa solucionar os graves problemas vividos no seu dia a dia. Aliás, o que se verifica é um injustificável descuido para com a causa indígena, e um exemplo concreto e incontestável são os dados da execução do Orçamento Geral da União relativos ao ano de 2011.

Orçamento Indigenista – 2011
R$ 785 milhões disponíveis
> Em todo o primeiro semestre do ano foram liquidados apenas 25% deste total


Examinando os dados disponíveis no portal do Senado Federal, pode-se verificar que não procede a alegação de falta de recursos para a demarcação das terras indígenas, uma vez que o Congresso Nacional autorizou a utilização de mais de R$ 21 milhões, dos quais o governo gastou menos de 28% até o momento. Sem falar em itens diretamente implicados com a proteção e promoção da saúde indígena, nos quais também se verifica uma execução orçamentária incompatível com o previsto. Na ação Proteção Social dos Povos Indígenas, o governo aplicou até o momento apenas 11,4% do montante autorizado; no item Estruturação de Unidades de Saúde foram aplicados irrisórios 0,14% dos recursos disponíveis; no item Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Indígenas, os recursos utilizados não chegam a 1% do previsto (0,82%); no item Promoção, Vigilância, Proteção e Recuperação da Saúde Indígena, somente 9,84% foram liquidados e, pior ainda, no item Saneamento Básico, nenhum centavo foi gasto até o momento.

Mais uma vez a objetividade dos dados quantitativos – que mostram o contingenciamento dos já escassos recursos destinados aos povos indígenas, não deixam margem a dúvidas: o governo coloca em curso uma política indigenista deficitária, que não parece ser resultado da incompetência de quem realiza a gestão, e sim resultado de uma intencional e deliberada política de privilegiar setores antiindígenas, especialmente aqueles ligados a obras desenvolvimentistas.

A cruel realidade vivida pelos Guarani, no Rio Grande do Sul, está diretamente relacionada à não demarcação de seus territórios, agravada pelo fato de que sequer dispõem de pequenas porções de terra, como ocorre com povos de outras regiões do Brasil. Os Guarani são submetidos à desumana condição de acampados, tornando-se vítimas de doenças, com alto índice de mortalidade infantil, como também sofrem ameaças e violências diversas.

Os acampamentos, as lonas, a falta de água potável, a falta de saneamento básico, a falta de vontade política e de coragem para garantir os direitos destes povos, marcam a atuação do governo brasileiro. Só podemos caracterizar este quadro, como uma prática de genocídio.

Amilta morreu sem ter pisado sua terra. As terras do povo Guarani e de outros povos indígenas país afora, estão delimitadas por cercas, espaço de vida para o gado, para plantações de transgênicos, para plantações de cana-açúcar que enriquecem alguns poucos “heróis nacionais”.

Em seus quatro anos, a pequena Mbya experimentou a escassez de alimentos, o frio das noites debaixo de lonas pretas, pisou a terra fria e úmida da beira da estrada, muitas vezes alagada pelas chuvas. Isso foi o que esteve ao seu alcance, em sua curta vida. Que a morte dessa pequena Kuñai (menina) Guarani não seja apenas mais um número, na estatística da mortalidade infantil indígena. Que em memória dela, e de tantas outras crianças, sejam levados adiante os procedimentos de demarcação que podem assegurar uma terra mãe acolhedora para resguardar a vida deste Grande Povo!

Porto Alegre (RS), 15 de julho de 2011.

Roberto Antonio Liebgott
Vice-Presidente do Cimi e integrante da Equipe Porto Alegre

Justiça condena articulista por insultar indígenas

A Justiça Federal condenou o articulista Isaac Duarte de Barros Júnior, do jornal O Progresso, de Dourados, no interior de Mato Grosso do Sul, a dois anos de reclusão no processo em que foi acusado de preconceito racial contra indígenas. A ação foi proposta pelo procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida em fevereiro de 2009, depois de receber denúncias dos índios de que, em artigo publicado no dia 27 de dezembro de 2008 sob o título “Índios e o retrocesso...”, o autor disparava frases pejorativas e ofensivas à população indígena.

Em um dos trechos do artigo, Barros Júnior, que também é advogado, afirma: “Eles se assenhoram das terras como verdadeiros vândalos, cobrando nelas os pedágios e matando passantes”. No texto, ele ainda chama os índios de “bugrada” e de “malandros e vadios”.

Em outro trecho, faz críticas à preservação da cultura indígena, ao afirmar que “a preservação de costumes que contrariem a modernidade são retrocessos e devem acabar. Quanto a uma civilização indígena quenão deu certo e em detrimento disso foi conquistada pela inteligência cultural dos brancos, também é retrógrada a atitude de querer preservá-la”.

Os argumentos apresentados pelo advogado na defesa de Barros Júnior não foram aceitos pelo juiz da 1ª Vara Federal de Dourados, Moisés Rodrigues da Silva, que em sua sentença sobre o caso diz que a liberdade de expressão não é uma garantia absoluta, pois “a dignidade da pessoa humana, base do Estado democrático de direito, prevalece sobre qualquer manifestação de pensamento que incite ao preconceito ou
à discriminação racial, étnica e cultural”. Por isso, condenou o articulista.

O procurador da República Marco Antonio Delfino disse que Barros Júnior teve oportunidade de se retratar, mas não o fez. O advogado Netto disse que o articulista não se retratou por entender que não cometeu crime algum, e que por isso vai apresentar recurso no Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo.


Fonte: MPF/MS