quarta-feira, 18 de abril de 2012

Indígenas ocupam sede da Funai no Acre por demarcação de terras

Cerca de 200 indígenas de dez povos do estado do Acre ocupam desde a manhã desta quarta-feira, 18, a sede regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), em Rio Branco. Os índios afirmam que só sairão do local depois da presença do presidente do órgão, ou representante direto, com encaminhamentos concretos sobre a pauta reivindicatória.

Antevendo ações de repressão, os indígenas requisitaram ao Ministério Público Federal (MPF) a garantia de permanência no local, pois temem que a Polícia Federal intervenha e os retire das dependências da Funai. 

A principal reivindicação é a demarcação de 21 terras indígenas espalhadas pelo estado e região de Boca do Acre, município que adentra ao sul no estado do Amazonas. Há mais de dez anos que os povos Jaminawá, Huni Kuĩ, Apurinã, Jamamadi, entre outros, esperam que a Funai resolva a questão fundiária.

Por outro lado, esperam também por providências imediatas quanto a questão da saúde, que entre o ano passado e este ano registrou 24 mortes de crianças indígenas vítimas de diarreia, suicídios e uma situação de calamidade pública na Casa de Saúde Indígena instalada em Rio Branco.

Como a educação diferenciada indígena é ignorada pelo governo estadual, transformando em caos as escolas nas comunidades, isso quando elas conseguem se estruturar, os povos reivindicam melhorias imediatas. Durante o ano passado, os indígenas ficaram acampados durante nove meses com os mesmos pontos de pauta. Ouviram das autoridades que as reivindicações seriam atendidas, mas até agora nada foi feito.

A decisão pela ocupação ocorreu durante o Acampamento Vozes das Aldeias, em contraposição às comemorações folclóricas do Dia do Índio, nesta quinta-feira, 19, e para lembrar que o mês de abril é um período de lutas intensificadas. Apesar da importância do evento para os indígenas, a coordenadora regional da Funai Maria Evanilza Nascimento dos Santos não compareceu, o que indignou os povos.

Conforme as lideranças, a ausência da coordenadora do órgão foi o melhor exemplo de como os governos vêm tratando os direitos e problemas das comunidades. Maria Evanilza compareceu à ocupação e conversou com os indígenas, que irredutíveis exigem a presença da Funai de Brasília.


Fonte: Conselho Indigenista Missionário  Cimi)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Entrevista na VOZ DO BRASIL remarcada para amanhã

A entrevista que estava marcada para hoje, às 19 horas, no Programa de Rádio "A Voz do Brasil", em rede nacional, com o Coordenador da Arpinsul Brasil e membro da Direção Nacional da APIB, Romancil Gentil Creta Kretâkaingang Kretâ, foi remarcada para amanhã, dia 18. 
Além de tratar da atual situação, demandas e principais desafios enfrentados, a conversa também irá abordar a divulgação de pesquisa do IBGE sobre os indígenas brasileiros. Para quem tiver interesse, a pesquisa já estará à disposição no site do IBGE - www.ibge.gov.br - a partir das 10 horas da manhã.

Acompanhem e compartilhem !!!!

CHAMADO AOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL E DO MUNDO





O ano de 2012 será decisivo para o futuro da humanidade e do planeta. De 20 a 22 de junho, o mundo estará voltado para as discussões na “Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável”, a “Rio+20”, que reunirá dezenas de Chefes de Estados de todos os Continentes para discutir saídas para a crise do sistema capitalista, sob o discurso da economia verde.

O evento global reunirá ainda milhares de participantes de todo o mundo. O movimento indígena marcará presença por meio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e as Organizações que a compõem: APOINME, ARPINSUL, ARPINSUDESTE, ARPINPAN, ATY GUASÚ e COIAB, na realização do Acampamento Terra Livre – ATL 2012, em aliança com o movimento indígena da América Latina através da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica - COICA, Coordenação Andina de Organizações Indígenas – CAOI e Conselho Indígena da América Central – CICA, assim como de outras partes do mundo. 

Os povos indígenas reunidos no ATL, estarão somando forças com outras organizações e movimentos sociais na Cúpula dos Povos. Ambos os eventos ocorrerão no Aterro do Flamengo, de forma paralela à Conferência oficial, a Rio + 20, e serão espaços de debate e socialização das questões específicas dos povos indígenas e de aglutinação de convergências das lutas populares, decisões e incidência sobre os temas que serão abordados na Conferência. 

O ATL discutirá, entre outros, os temas da terra e território, empreendimentos que impactam as  terras indígenas e os recursos naturais, e direito de consulta aos povos indígenas estabelecido pela Convenção 169 da OIT. Tudo isso, considerando o contexto político e econômico imposto pelas classes dominantes que com o apoio do Governo consideram os povos indígenas um empecilho para o modelo neodesenvolvimentista que almejam, modelo esse marcado pelo sonho do crescimento ilimitado em base à destruição da Mãe Natureza. 

Em razão desse projeto, no caso específico do Brasil, setores ou representantes do latifúndio, do agronegócio, das mineradoras, das madeireiras, dos grandes empreendimentos, de empresas transnacionais e do próprio governo tem se articulado para reverter os direitos indígenas reconhecidos pela Constituição Federal e instrumentos internacionais de proteção como a Convenção 169 e a Declaração da ONU sobre os direitos dos povos indígenas. São inúmeras as grandes obras que invadem os territórios indígenas em nome desse desenvolvimento que na verdade é insustentável: as hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antonio, Jirau e Teles Pires, a Transposição do São Francisco, o agronegócio no Centro-Oeste, as Pequenas Centrais Hidrelétricas no sul do país, o Projeto TIPNIS na Bolívia, e o Plano Puebla-Panamá, entre outros. 

As violações aos direitos dos povos indígenas tem aumentado: processos demarcatórios suspensos, principalmente nas regiões do nordeste, centro-oeste e sul, relatórios não concluídos e publicados, falta de desintrusão e proteção das terras indígenas, flexibilização da legislação indigenista e ambiental. Lideranças indígenas são criminalizados, perseguidos, ameaçados, detidos arbitrariamente, assassinados inclusive, com inquéritos não concluídos e processos sequer abertos, permitindo que a impunidade se torne rotineira em detrimento da integridade física, psicológica e cultural das comunidades indígenas, como acontece principalmente nos Estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Pernambuco. No ano de 2010 foram assassinados 63 lideranças, a maioria no Mato Grosso do Sul. 

O ATL e a Cúpula dos Povos certamente serão espaços oportunos para tornar visível junto à opinião pública nacional e internacional essa crescente violação dos direitos indígenas, que acontece sob o olhar omisso e a conivência do atual Governo. 

A APIB reafirma por isso que o Acampamento Terra Livre e a Cúpula dos Povos devem ser espaços autônomos aonde se discute a situação dos direitos indígenas, mas também os problemas com que se defrontam a humanidade e o planeta, em decorrência do modelo de desenvolvimento depredador, preocupado apenas com o lucro e o consumo exacerbado, adotado pelos paises ricos, inclusive pelo Brasil. 

A APIB entende que os povos indígenas não podem mais ser vistos só como portadores de valiosas manifestações culturais e espirituais, componentes do folclore nacional inclusive, ou como fontes de sabedoria ancestral suscetível de ser explorada pelo mercado capitalista. O respeito aos povos indígenas requer valorizar a sua contribuição na formação social do Estado nacional e reconhecer o papel estratégico que os territórios indígenas têm desenvolvido milenarmente na preservação do meio ambiente, na proteção da biodiversidade e na solução dos problemas que hoje ameaçam a vida no mundo. 

Como funcionará o Acampamento 

É importante que todos, povos e organizações, articulem a sua participação no IX Acampamento Terra Livre, mobilizando-se na busca de apoio ao seu deslocamento para Rio de Janeiro. A APIB somente irá assegurar as condições necessárias de infraestrutura e logística no local do evento. O ATL acontecerá nas imediações do Aterro do Flamengo, de 17 a 22 de junho. Está estimada a participação de mais de 1.200 indígenas só do Brasil, aos que se juntarão lideranças de outros países, do nosso continente e do mundo. O ATL Interagirá com a Cúpula dos Povos, visando incidir na Conferência Oficial. 

A salvação do Planeta está na sabedoria ancestral dos povos indígenas. 

Pela defesa dos direitos indígenas, contra a mercantilização da vida e da natureza, e pelo Bem Viver e Vida Plena para os Povos e comunidades indígenas. 

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB

NOTA DE APOIO AO MOVIMENTO INDÍGENA NO SUL DA BAHIA

A COIAB vem por meio desta manifestar seu apoio aos parentes Pataxó Ha ha hãe no sul da Bahia, que estão nessa luta incansável em busca da paz em seus territórios. Aonde o povo quer de volta o direito de viver em sua terra, livres da destruição dos fazendeiros, dos coronéis do agronegócio que fazem guerra para continuar o criminoso projeto de desertificação do Brasil, que fazem do nosso país um celeiro de grãos para alimentar a fome do capital.

A luta pela retomada de seus territórios, é travada não só contra os fazendeiros e invasores do território indígena, mas também contra a grande imprensa que vem manobrando a opinião pública.

A verdade é que há quase trinta anos, tramita no Supremo Tribunal Federal um processo solicitando a nulidade dos títulos entregue aos fazendeiros. Nesse período o povo indígena cresceu, e precisa retomar o seu território para viver dignamente.

Desde o início do ano, o povo Pataxó Hãhãhãe tem ocupado fazendas que estão dentro de seu território. O clima de tensão na região é o resultado do descaso do poder público que permite a invasão de fazendeiros nos territórios indígenas na Bahia, como em todo o país.

O movimento indígena trava uma peleja contra as elites ruralistas que, ao longo desses 511 anos, patrocinam o criminoso esquema do agronegócio que perturba as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e todos aqueles que acreditam que dinheiro não se come.


Amazônia Brasileira, 16 de abril de 2012.



Saudações Indígenas,

Coordenação Executiva da COIAB

Povos Indígenas na VOZ DO BRASIL hoje

Hoje às 19 horas, no Programa de Rádio "A Voz do Brasil", em rede nacional, o Coordenador da Arpinsul Brasil e membro da Direção Nacional da APIB, Romancil Gentil Creta Kretâkaingang Kretâ, concede entrevista sobre atual situação, demandas e principais desafios enfrentados pelos Povos Indígenas. 

Acompanhem !!!!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Conselho Nacional de Juventude realiza eleição e garante participação indígena

No dia 12 de abril foi realizada a assembleia de eleição para a composição dos novos conselheiros no bienio de 2012/2013 para o Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE).

Durante  a assembléia foi definido que a  Juventude Indígena terá uma cadeira para representação dentro deste Conselho, uma conquista obtida  após um processo de muita articulação, envio de documentos das organizaçõe indígenas para a Secretaria Nacional de Juventude e  conversas com a mesa diretora.

A COIAB e APOINME, organizações que integram a APIB, estarão fazendo alternância desta cadeira no Conselho, que no primeiro ano fica com a COIAB e no segundo ano com a APOINME. As duas organizações terão 10 dias para oficializar os nomes dos seus representantes.

Povo Pataxó Hã Hâ Hãe retoma seu território tradicional na Bahia


Lideranças indígenas do Povo Pataxó Hã Hã Hãe iniciaram na manhã deste domingo, dia 15, a retomada de seu território tradicional, que compreende cerca de 54,1 mil hectares em uma região distribuída entre os municípios de Itaju do Colônia, Pau Brasil e Camacan, no estado da Bahia. Foram ocupadas 8 fazendas.

Desde que iniciaram a luta para recuperar suas terras invadidas pelos fazendeiros da região,  os índios têm sido assassinados, perseguidos e criminalizados,  sem que nenhum culpado tenha sido levado à Justiça até hoje.  Além disto, há 29 anos tramita no Supremo Tribunal Federa uma ação proposta pela Funai em que se pede a nulidade dos títulos  concedidos irregularmente pelo governo estadual aos proprietários de terras em Pau Brasil e nos outros municípios.

Aliados da elite política e das forças de segurança locais, incluindo a Polícia Federal, os grandes proprietários de terras, além de responsáveis pela morte e desaparecimento de lideranças, também promovem, através do poder econômico, uma campanha difamatória na imprensa baiana, que acentua  ainda mais o preconceito contra os indígenas, já tão presente em nossa sociedade.  

Os Pataxó Hã Hã Hãe garantem que a ocupação é pacífica e que nenhum dos funcionários das fazendas ocupadas  foi ou será ferido. Eles, no entanto, temem pela segurança de suas famílias, pois sabem que os pistoleiros à mando dos fazendeiros constumam reagir com grande violência e, segundo informações recebidas,  já estariam se preparando para uma represália
      
Leia abaixo a íntegra de  um manifesto divulgado pela lideranças Pataxó Hã Hã Hãe  no dia de ontem :  

Manifesto do  Povo Pataxó Hã Hã Hãe em 15 de abril de 2012

               
Hoje pela manhã nós Pataxó Hãhãhãe iniciamos a retomada da região sul de nosso território tradicional, região esta conhecida como Rio Pardo devido à proximidade do rio de mesmo nome. A região estava toda ocupada por fazendeiros. A ação de retomada de nosso território ocorreu de forma pacífica, pois não haviam pistoleiros no momento que entramos nas áreas. Em razão de termos feito retomadas recentes, os fazendeiros desta região certamente acreditavam que não iriamos tentar retomar novas áreas por agora, em razão disto as fazendas não estavam sendo guardadas por pistoleiros e assim pudemos ocupa-las.

Acreditamos que nossas ações de retomada são necessárias, pois já não podemos mais viver sem que tenhamos acesso a todo o território que temos direito de ocupar. A ação de nulidade de títulos de terras já se arrasta na justiça por três décadas, nesse tempo nossa comunidade cresceu, muita gente morreu e não viu nossos direitos sendo reconhecidos e respeitados. Durante estas nossas últimas ações que se iniciaram no começo deste ano, sofremos ameaças, tentativas de assassinato, e diversas outras represálias. Somado a isso, estamos sendo sistematicamente difamados pelos meios de comunicação que nos tratam como invasores de terras, dentre outras coisas igualmente depreciativas. Somos um povo pacífico, trabalhador, lutamos diariamente por nossa sobrevivência, e não aceitamos sermos tratados como um bando de criminosos com o objetivo de negarem nossos direitos sobre nossos territórios. Estamos percebendo uma campanha por parte dos fazendeiros e seus aliados que vem tentando nos desqualificar, e com isto justificar o esbulho de terras praticados contra nós Pataxó Hãhãhãe por décadas a fio.

Já estamos tendo notícias de que os fazendeiros estão se armando e convocando suas milícias para tentar nos expulsar mais uma vez de nossas terras, como já fizeram muitas vezes. Os pistoleiros são pessoas perigosas que agem com extrema violência. As pessoas na cidade de Pau Brasil já estão se comunicando conosco e avisando que nenhum índio vá para a cidade, pois o clima está muito perigoso. Estão vendo o movimento de homens armados convocados para nos retirar a força das áreas que acabamos de ocupar.

Diante disto, solicitamos às autoridades competentes que tomem as ações necessárias para manter a paz em nossas terras e regiões adjacentes, impedindo o livre transito de homens armados pelas estradas e cidades da nossa região. Reafirmamos que nossas ações se pautam em nosso direito histórico sobre nosso território tradicional, não agimos com violência e não desejamos que a violência dos fazendeiros atinja a ninguém, sejam índios ou não índios.

Lideranças Tumbalalá reivindicam demarcação de terras e fim de grandes obras no rio São Francisco

Cercados por grandes empreendimentos e a presença não-indígena no território de ocupação tradicional, lideranças do povo Tumbalalá passaram esta semana pela Capital Federal para reivindicar a demarcação das terras, no norte da Bahia, e denunciar os impactos gerados por décadas de construções de hidrelétricas, sendo as mais recentes atreladas ao projeto da Transposição do rio São Francisco.

Os Tumbalalá vivem entre os municípios de Abaré e Curaçá e compõem uma população com cerca de 5 mil indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) os reconheceu quanto etnia em 2001, sendo que o relatório de identificação das terras do povo foi publicado em junho de 2009, com 44.978 mil hectares. Depois do período de contestações, no entanto, o Ministério da Justiça ainda não publicou a Portaria Declaratória de demarcação.

Durante encontros com o corpo diretor da Funai, procuradores federais da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão e integrantes do Ministério da Justiça os indígenas expuseram que desde a década de 1970 o território sofre com a construção de hidrelétricas no rio São Francisco. A primeira delas foi a barragem de Sobradinho, com impactos que são sentidos até hoje por conta das mudanças nos modos e costumes dos Tumbalalá.

Sobradinho foi responsável pelo fim da agricultura de subsistência, realizada na vazante do rio. As cheias no trecho do São Francisco que passa numa das pontas da terra indígena eram fundamentais para os períodos de plantações. Quando as águas baixavam, as terras das margens ficavam aptas à agricultura, pois eram adubadas pelo próprio São Francisco. Com as barragens tudo mudou: as cheias passaram a ser determinadas pela abertura das comportas.

"O rio enche conforme a barragem quer: se chove muito e a barragem está seca, eles seguram a água. Para plantar é preciso levar em consideração as vontades dos controladores da barragem. Em muitas ocasiões nós plantamos, mas perdemos com a abertura inesperada da barragem. Toda a roça ficava debaixo d'água", explica a liderança Cícero Rumão Gomes Marinheiro Tumbalalá.

Plantava-se de forma diversificada na vazante do São Francisco: feijão, milho, batata, abóbora, cana, mandioca, jerimum, feijão de arranca. A pesca era farta, sobretudo de peixes de grande porte: surubim, dourado, pirá, curvina. A vida era farta não só para os indígenas, mas também para os ribeirinhos. Engenhos de rapadura e casas de farinha garantiam a complementação alimentar e renda.

"Tínhamos plantas específicas para os rituais que nunca mais vimos, pois nasciam nesse processo da cheia e da vazante. Os costumes mudam com essas obras. Lembro que não tínhamos açúcar, pois usávamos a garapa da cana. Com farinha e rapadura se passava o dia na roça. Às vezes, chegávamos ao rio e pescávamos um peixe e estava lá o almoço. Tudo era mais fácil", lembra Cícero. A hidrelétrica de Sobradinho, no entanto, deixou consequências ainda mais graves aos indígenas.

A agricultura praticada nas vazantes alimentava toda a população sem nenhum custo, além da força de trabalho dos indígenas. Não se gastava com adubos, irrigação da terra, já úmida pelas águas do Velho Chico, e tampouco com venenos. As plantações eram orgânicas. Sem as cheias, os cultivos tiveram que migrar para o interior. Longe do rio, a agricultura só é possível com irrigação, adubos e agrotóxicos. Planta quem tem capital e poluindo a terra e os riachos com o veneno utilizado.

Engenhos de rapadura e casas de farinhas foram fechados.

Assentamento e poluição

Na década de 1980, cerca de dez anos depois do início do barramento de Sobradinho, a hidrelétrica de Itaparica é construída no rio São Francisco. A barragem afetou os indígenas, apesar de afastada das terras Tumbalalá, porque a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela obra, assentou os desabrigados das áreas alagadas no território.

"Na área do assentamento, longe do São Francisco, há riachos. Como lá eles fazem plantações com agrotóxicos, matam plantas, peixes e inutilizam as águas. Nunca que precisou de carro pipa por ali e agora precisa, porque as águas dos riachos estão poluídas e os rios temporários não duram o ano inteiro. Nem para os animais a água presta", explica José Augusto Alves de Santana Tumbalalá.

Os assentamentos ocuparam grande parte da mata do povo indígena. Conforme as lideranças, os rituais ficaram prejudicados. Com a presença de posseiros e médios fazendeiros, a caça e o acesso às plantas medicinais ficaram prejudicados. A restrição da ocupação do território fez com que os indígenas se concentrassem às margens do rio e o resto do território acabou dividido entre assentados, posseiros e fazendeiros.

"Quem caça é o posseiro e o assentado, os indígenas não caçam. Dessa forma, os animais estão sumindo. Vendas de tatus, asa branca e outros animais são comuns entre os não-indígenas", destaca João de Deus Gomes de Santana Tumbalalá.

No entanto, os Tumbalalá não foram os únicos prejudicados pela barragem de Itaparica. O grande empreendimento causou danos aos Tuxá, inundando parte das terras do povo que vive na região de Rodelas. Alguns Tuxá foram assentados na terra Tumbalalá e estão no território até hoje.

Os novos monstros: Riacho Seco, Pedra Branca e a PEC 215

Duas outras hidrelétricas estão em andamento no rio São Francisco: Pedra Branca - dentro do território Tumbalalá - e Riacho Seco - acima do território, mas com impactos nas águas do rio que chegam até a aldeia. As barragens fazem parte do projeto de Transposição do rio São Francisco. Entre as transformações sociais causadas pelas obras está o envolvimento dos índios com drogas, doenças, alcoolismo e demais impactos com a presença massiva de não-indígenas nos esforços de construção das usinas.

"O rio já está prejudicado. Com mais duas hidrelétricas, o rio fica mais fraco ainda. Os peixes vão acabar de vez", lamenta Celestino Feliciano dos Santos Tumbalalá. "Tem ribeirinho passando fome morando na beira do rio. Nunca que isso acontecia antes. Enquanto fazem um grande projeto para beneficiar uns, outros que vivem do rio há séculos morrem. A transposição é para os grandes latifundiários e empresários", completa com revolta Miguel Marcolino Barbalho Tumbalalá.

As lideranças explicam que ninguém na comunidade teve casa bonita, com todos os confortos, e carro na porta, porém, comida, água e trabalho nunca faltaram. Agora indígenas e ribeirinhos seguem não tendo casa bonita e conforto, mas perderam o essencial que tinham: comida, água e trabalho. Conforme admitiu o próprio governo federal, a água da transposição poderá ficar 10 vezes mais cara além do esperado.

"Viemos reivindicar a Portaria Declaratória de demarcação do território, indenização e extrusão dos não-índios. Estamos com a expectativa de que aconteça alguma coisa boa, incluindo a não construção dessas usinas. O problema é que com a PEC 215 nós não estamos animados", analisa Cícero Tumbalalá.

A PEC 215 é uma proposta da bancada ruralista da Câmara Federal que visa tirar do Executivo e levar para o Legislativo a demarcação e homologação de terras indígenas. Para os Tumbalalá, caso a PEC entre em vigor, só serão demarcadas terras de acordo com os interesses dos latifundiários. "Sabemos que os parlamentares têm financiamento desses empresários e proprietários de terras, mas vamos seguir na briga", finaliza Cícero.


Fonte: Assessoria de Comunicação - Cimi

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Liderança da Aty Guasu sofre ameça de morte em MS

Na última sexta-feira, dia 6, o líder indígena da Aty Guasu (Grande Assembléia Guarani Kaiowá) e antropólogo, Tonico Benites, se tornou a mais recente vítima de ameaça de morte em Mato Grosso Sul. Ele se tornou alvo devido ao seu envolvimento na luta pela demarcação das terras de seu povo e o fim de um verdadeiro genocídio praticado sistematicamente por pistoleiros contratados por grandes proprietários de terras,  ligados à elite política do estado. 

Nos próximos dias, a Aty Guasu deve realizar uma reunião na região para  discutir o problema.

O que se lê a seguir, em carta encaminhada às autoridades, é o relato  do encontro de Benites, sua mulher e filhos, com  um destes pistoleiros :

Prezados (as) autoridades federais,

Eu, Tonico Benites, vim por meio desta mensagem comunicar a todas autoridades federais que hoje de manhã, sexta-feira [06/04/2012], às 10h20, na estrada pública, em frente da aldeia Pirajuí-Paranhos-MS, um homem não índio, com dois revólveres na mão cercou a estrada e me mandou parar o carro, pedindo para eu descer dele.

Diante disso, eu falei para minha esposa, que estava junto comigo, além da crianças: "É hoje que pistoleiro vai me matar; eu vou descer". "Você desce e pega a chave do carro e as crianças, e vai correndo avisar as lideranças da aldeia Pirajui".


Ela começou a chorar com as crianças. Abri a porta e desci. O homem começou me pedir documento pessoal e do carro; passou a me interrogar. Entreguei a ele os documentos, ele olhou meu documento e falou: "Hã! vc é o Tonico Benites né!?, o que veio fazer por aqui!, conta? Hoje vamos conversar seriamente!"


Respondi: "Sim, eu mesmo. Vim visitar a família da esposa e parentadas aqui na aldeia Pirajui e Potrero Guasu". Ele falou: "É só isso??" respondi que sim. Comecei entrar em estado de raiva, medo e desespero, e perguntei o que pretendia fazer comigo e a mando de quem? Ele riu e disse: "Você é inteligente, né? Que bom!?".


Enquanto isso, a minha esposa gestante de 7 meses, e as crianças irmãzinhas dela começaram a chorar dentro do carro. O homem, ao ouvir o choro, falou-me naturalmente: "Você tem filhos e esposa, né? Gosta dela e de teus filhos? hein?! fala?" Respondi que sim.


Então ele passou me ameaçar: "Você vai perder tudo, ela que você ama e filhos que gosta, vai perder, Vai perder carro. Vai perder dinheiro. Tudo você vai perder. Você quer perder tudo? Você quer perder tudo?", ele repetiu várias vezes essas pergunta. Respondi: "Não! Não! Não!"


Já tinham passado mais de 20 minutos e a chuva estava chegando. "Você tem dinheiro?" Passou a me pedir a carteira do bolso. Entreguei a ele. "Hã! você tem sim! E vai começar perder." E pegou tudo o que eu tinha na carteira. Pediu-me várias vezes para não voltar mais àquela aldeia e região. "Se você promete que nunca mais vai volta por aqui vou soltar você vivo. Respondi: "Sim, sim!".


Ele falou: "Não estou não sozinho não; somos muitos. Aqui estamos só quatro. Tá vendo?", indicando o matinho. "Você não está fazendo o trabalho que presta, sabia não?", referindo-se à ocupação da terra e pesquisa antropológica. Ele sabe tudo sobre mim e meu trabalho. Fala bem língua guarani.


Depois se apresentou dizendo que ele é polícia do Paraguai. A vestimenta dele é similar a traje da polícia da Força Nacional. Pediu para eu não contar para autoridade, não! Só assim me soltaria vivo e nem levaria o carro, e nem machucaria minha esposa e crianças. Prometi que não contaria para ninguém.


Mais ou menos por 40 minutos, ele me falou: "Vai embora daqui! Nunca mais quero ver você por aqui." Respondi que sim!, se me soltasse, eu não voltaria àquela aldeia. Por último, disse: "Vou ficar de olho em você, hein?!


Assim me liberou. Não me machucou fisicamente, mas verbalmente sim; psicologicamente saí traumatizado, tremendo, muito medo. Às 10h45 fui direto à casa da liderança indígena da aldeia Pirajuí. Contei-lhe e ele ligou para a delegacia de Polícia Civil, em Paranhos, mas ninguém atendeu. Achamos que, por conta do feriados.


Imediatamente, as comunidades de Pirajuí se juntaram, querendo saber do acontecimento. Contei a todos o fato ocorrido. O Otoniel já se encontrava no interior da aldeia Pirajuí, e Eliseu já estava em Ypo'i. Minha esposa ficou muito mal, pediu para retornar a Dourados. Por isso, pedi às lideranças para me escoltar até a cidade de Paranhos. Eles me escoltaram com várias motos, deixando-me na cidade em Paranhos-MS. Retornei a Dourados, chegando lá às 20h30, e passei a escrever o fato ocorrido comigo hoje.


A liderança da aldeia Pirajuí me pediu para retornar segunda-feira para registrar queixa na Polícia Civil. Mas sozinho não quero voltar para lá, não. Preciso fazer algo mais diante disso. O Otoniel e o Eliseu se encontram na região de Paranhos-MS.


Att,


Tonico



Clamor por investigação e fim da impunidade nos crimes contra indígenas


A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e as organizações indígenas regionais que a integram, entre elas a Aty Guasu, por repetidas vezes têm denunciado à sociedade, ao governo e à imprensa em geral, as atrocidades cometidas em nosso país contra os Povos Indígenas, sem obter absolutamente nenhuma resposta  efetiva. Até  hoje nenhum criminoso neste país foi levado ao tribunal pelas mortes  de índios, que continuam a se repetir do Oiapoque ao Chuí, enquanto nossas lideranças são vítimas de criminalização, perseguidas e encarceradas sem provas. Isto, no entanto, mais do que nos desanimar, nos incentiva a lutar ainda mais por Justiça.

internacionais, ao lado de nossos aliados - leia matéria sobre denúncia  feita pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) à ONU- e não iremos nos deter até que  todos os indígenas  possam usufruir  livremente do direito à  terra, à vida e a diversidade cultural.

Terra Livre para os Povos Indígenas !

Índigenas bloqueiam BR-101 na Bahia em protesto por segurança

Cerca de mil índios pataxós de 20 aldeias bloquearam a BR-101, próximo ao Monte Pascoal, em Itabela, a 671 km de Salvador, no extremo sul da Bahia, nesta terça-feira (10). Os indígenas pediram mais segurança nas aldeias e a aceleração no processo de demarcação das terras de Barra Velha e das aldeias de Cai e Pequi, atualmente em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.

As lideranças também protestaram  contra a aprovação, ocorrida na semana passada, da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 215, por parte da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.A PEC 215 transfere ao Congresso Nacional a competência de demarcação de terras indígenas, unidades de conservação e terras quilombolas. Para os índios, a retirada do Executivo é prejudicial.

Segundo o cacique Urubaiá, da Aldeia Velha, localizada em Arraial d'Ajuda, distrito de Porto Seguro, uma comissão de quatro índios estará em Brasília esta semana para tentar conseguir avanços nas reivindicações.

"Só vamos sair quando tivermos uma resposta das lideranças sobre o que foi definido por lá", disse o cacique, que reclama da violência nas aldeias gerada, segundo ele, pelo tráfico de drogas, "introduzido na aldeia pelo homem branco".